Turbulências econômicas com políticas tarifárias do então presidente Donald Trump, com isso dólar atinge menor valor.
Cenário econômico instável
Com o início de 2026, esperava-se um período de maior estabilidade, mas as últimas semanas mostraram que essa expectativa pode não se concretizar.
Na última terça-feira, 27 de janeiro, o dólar atingiu seu ponto mais baixo em quatro anos frente a uma cesta de moedas internacionais. Em relação ao euro e à libra esterlina, a moeda americana caiu cerca de 3% em apenas uma semana. Embora a queda tenha desacelerado, analistas acreditam que a recuperação do dólar será temporária.
Chris Turner, chefe global de pesquisa de mercados financeiros do grupo ING, afirma que há um consenso de que o dólar deve continuar se enfraquecendo ao longo do ano. A incerteza reside apenas no momento exato dessa desvalorização, mas a direção parece clara.
Um dólar mais fraco tem implicações diretas para os consumidores americanos, reduzindo seu poder de compra, especialmente em viagens internacionais. Além disso, há o risco de que a continuidade dessa tendência possa alimentar a inflação interna nos Estados Unidos, elevando os preços de produtos importados.
Impactos e questionamentos sobre a moeda americana
A queda do dólar levanta questões sobre seu status como a moeda preferida no cenário global, um fator que historicamente ajudou a manter baixos os custos de empréstimos nos Estados Unidos. O dólar vinha se valorizando por mais de uma década, especialmente entre 2020 e 2022, impulsionado pelo crescimento econômico pós-pandemia e por taxas de juros relativamente altas.
No entanto, em 2025, o índice do dólar, que mede seu valor em relação a uma cesta de moedas, caiu quase 10%, registrando o pior desempenho desde 2017. Grande parte desse declínio ocorreu após o “Dia da Libertação”, em 2 de abril de 2025, quando Trump anunciou novas tarifas de importação.
Recentemente, o dólar sofreu novas perdas devido ao aumento das tensões entre os Estados Unidos e a Europa sobre a Groenlândia. Além disso, especulações sobre possíveis ações dos EUA para enfraquecer ainda mais o dólar, como a venda da moeda em conjunto com o Japão para promover o iene, também contribuíram para essa tendência de queda.
Analistas apontam que a desvalorização do dólar reflete as preocupações do mercado com as políticas do governo Trump. Robin Brooks, do Instituto Brookings, observa que as reações negativas às tarifas e à questão da Groenlândia são sinais de que as políticas erráticas do governo estão prejudicando os Estados Unidos.
Fatores externos e internos influenciam o mercado
Além das políticas internas, outros fatores externos também estão influenciando a queda do dólar. O aumento das oportunidades de investimento no exterior e o movimento recente de venda no mercado japonês de títulos são exemplos disso. Esse cenário levou alguns traders a explorar a diferença de valor entre o iene e o dólar.
Comentários do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, negando a intervenção dos EUA para ajudar o Japão, ajudaram a estabilizar o dólar temporariamente. No entanto, ainda há incertezas sobre quais ações o governo Trump poderá adotar a seguir.
A saída de investidores do mercado do dólar contribuiu para a alta do preço do ouro, que dobrou no ano passado, à medida que os investidores buscavam alternativas de baixo risco. Enquanto isso, outras moedas começaram a se valorizar em relação ao dólar, como o euro e a libra, que registraram avanços em janeiro.
Fundos de pensão da Holanda e da Dinamarca estão reduzindo suas posições no mercado de bônus do tesouro americano, um sinal de que investidores globais podem estar saindo dos Estados Unidos. Contudo, Chris Turner acredita que ainda estamos longe de um cenário de “Sell America”, ou seja, uma redução maciça de ativos americanos.
Perspectivas futuras e possíveis consequências
Apesar da queda do dólar, o mercado de ações dos Estados Unidos continua a registrar recordes de alta, e as movimentações no mercado de dívida do governo americano permanecem relativamente contidas. O ING prevê que o dólar pode cair mais 4% a 5% este ano, à medida que as perspectivas de crescimento fora dos EUA aumentam.
No momento, a desvalorização do dólar ainda não representa um impacto significativo para os consumidores americanos, mas isso pode mudar dependendo do desempenho econômico dos EUA e das decisões do Federal Reserve sobre as taxas de juros.
Trump tem pressionado por uma redução mais rápida das taxas de juros e recentemente nomeou Kevin Warsh para substituir Jerome Powell no comando do Fed. A indicação de Warsh, que ainda precisa ser confirmada pelo Senado, pode sinalizar uma mudança na política monetária americana.
Se as taxas de juros caírem, o dólar pode se desvalorizar ainda mais, incentivando investidores a buscar retornos mais altos em outros países. Para a Casa Branca, um dólar mais fraco pode ser visto como positivo, aumentando a competitividade das exportações americanas.
Trump já declarou que um dólar mais fraco pode ser mais lucrativo do que um dólar forte, e afirmou que a moeda está “indo muito bem”. No entanto, Robin Brooks alerta que uma queda sustentada do dólar pode ser benéfica para as empresas americanas, mas apenas se não for resultado de políticas ruins.
“A maioria das pessoas acredita que o dólar deveria, poderá e irá se enfraquecer ainda mais este ano.” – Chris Turner
